Era madrugada e ele estava inquieto, rastejando pelas poças d’água deixadas pela chuva. Muito ferido, o moribundo só pensava em sua vingança. Mas não havia tempo.
De repente como se o inferno abrisse suas portas, ela surgiu. Ao mirar seu olhar ele teve a certeza de que iria morrer, viu pena em seus olhos e desejou que ela não estivesse ali.
Ela se aproximou tentando conter as lágrimas, sua voz estava embargada, mas ela insistia em manter-se firme, ele não soube distinguir se para acalmá-lo ou se para não lhe dar o gosto de vê-la sofrer.
Os dois trocaram um longo olhar, que dizia muito mais do que qualquer palavra, ele então se destituiu de todo o orgulho e lhe pediu um beijo de despedida. Ela hesitou, mas se compadeceu do homem à sua frente e o beijou longamente.
A luz da lua iluminou a lâmina do pequeno canivete que ele tentava retirar do bolso.
Ela ainda o beijava quando sentiu uma dor fina em seu ventre, a dor foi ficando insuportável e ela sentia como se a cortassem ao meio!
Quis gritar, mas um líquido escorria por sua garganta, ela conhecia aquele gosto… Sangue!
Olhou para o moribundo não acreditando no que ele acabara de fazer.
Ele sofregamente sussurrou-lhe:
– Não conseguiria partir se não a levasse comigo.
Naquele momento ela sentiu um misto de ódio e amor, ele foi traiçoeiro e egoísta até mesmo em seus últimos momentos! Ela que tanto tinha a oferecer à vida, agora estava condenada a vagar ao lado dele por toda a eternidade! Ele que era a sua outra parte, ele que tanto insultara, era o seu reflexo no espelho, seu par, seu amor e o seu fim!

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