Medo

1 11 2008

Fear

Não tinha consciência se estava adormecida ou acordada, como em um passe de mágica se viu em um outro tempo.

Aquele lugar era diferente de tudo o que já havia visto, era como se estivesse em plena idade média, mas como isso era possível?

Olhou para si e se viu vestida de branco, não era a camisola de cetim negro que ainda lembrara ter vestido antes de dormir. Mas o que estava acontecendo? Por que estava presa naqueles tempos idos? Havia algo entre suas pequeninas mãos, uma chave… Uma porta à sua frente a fez intuir que estava ali para desvendar o que haveria por detrás daquela porta.

Era madrugada e uma névoa trazida por uma brisa gélida a envolveu mudando o cenário, ela sentiu um medo incontrolável e percebeu que algo iria acontecer, teve a nítida sensação de que era observada. Não pensou duas vezes e decidiu abrir a pesada porta à sua frente.

A chave caiu ao chão e no meio daquela espessa névoa ela não a enxergava mais, uma ligeira sensação de pânico ameaçou tomar conta, mas ela sabia que se perdesse o controle talvez não conseguisse sair daquele transe.

Tateou no chão de terra e conseguiu recuperar a chave, suas mãos tremiam dificultando a operação, a fechadura estava enferrujada, um obstáculo a mais.

Todos os seus movimentos, mesmo a sua respiração ofegante e sofrida, ecoavam pela noite, sentiu uma luz incidindo sobre seu corpo, era a lua que incrivelmente iluminava a sua visão em meio aquela névoa.

A porta se abriu com barulho, certamente há muito ninguém a atravessara, ainda assustada ela entrou em um lugar cheio de livros antigos que mais pareciam diários. O cheiro daquele ambiente era quase inexplicável, remetendo a um passado distante, mas não totalmente desconhecido.

Ela ainda não conseguia entender por que estava ali naquele lugar perdido no tempo. Fechou a porta atrás de si olhou pelas frestas, não viu ninguém, estava totalmente sozinha.

Trancou a porta para se manter segura e esperou até seus olhos se acostumarem com a penumbra, olhou à sua volta e um cálice com uma bebida vermelha havia sido posto encima de uma mesa empoeirada. Foi até o cálice e ao tocá-lo a bebida caiu em seu alvo vestido. Ela se assustou, mas como se estivesse em um transe começou a folhear um dos livros, ele trazia histórias espetaculares sobre a vida de uma mulher que viveu muitas vidas, que muito aprendeu e ensinou.

De repente um arrepio percorreu todo o seu corpo e um estalo em sua cabeça a fez cair desmaiada no chão.

Acordou em sua cama ainda zonza, pois o sonho havia sido longo. Olhou em volta e tudo parecia ter voltado ao normal, refletiu por alguns instantes sobre o incrível sonho que tivera e concluiu que as histórias contidas naqueles livros eram as suas histórias.

Esteve prestes a descobrir tudo o que conhecera e vivera em outros corpos e em outras consciências. Quem ela era para o universo? E por que não teve tempo de ler o livro até o final? Poderia descobrir o desfecho da vida que estava vivendo e talvez modificar um final que não lhe agradasse.

Horas depois entendeu o real sentido daquele sonho, era preciso perder o medo e se entregar abertamente à vida, aprender e ensinar, cair e se levantar, amar e perdoar… Somente assim ela daria continuidade às obras-primas contidas na biblioteca temporal do universo.

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De Sombra e de Sol

24 08 2008

Era um local evitado pelas pessoas de fé. Um antigo salão frio e abandonado. O vento passava feroz por entre as frestas de suas janelas e adentrava a escuridão de seu interior, que era atenuada apenas pelos fracos raios solares do final da tarde. Tão logo a noite chegasse, tudo se tornaria obscuro.

Em uma grandiosa pedra de mármore branco ela descansava. Adormecida parecia uma criança inocente, a alva camisola escondia as formas sinuosas do seu corpo, os longos cabelos negros caíam-lhe sobre o colo indo parar perto da fina cintura.

O ultimo raio de sol banhou seus olhos como que a avisando que dali por diante apenas a escuridão a acompanharia. Ela abriu os olhos lentamente e foi pouco a pouco se acostumando com a falta de luz no interior do salão.

“Estou só…”

Havia sonhado e em seus sonhos ela pôde apreciar uma garota brincando nos campos verdes da floresta, ela corria feliz e se deliciava com o perfume das flores que encontrava no caminho. O sol de primavera fazia com que ela sentisse um calor gostoso percorrer o corpo, suas bochechas ficaram rosadas e ela sentiu sede. Andando alguns metros encontrou um riacho de águas cristalinas, ajoelhou-se e não se importou de molhar o fino vestido, com as duas mãos em forma de concha saciou sua sede. O líquido puro refrescou o crescente calor que sentia e então ela sentiu muito, muito frio.

Acordou acordado ali, no mármore gélido daquele salão amaldiçoado. Sua existência havia se limitado a esperar por alguém que a libertasse do frio e da escuridão, alguém que fosse capaz de trazer o calor do sol de volta. Desesperava-se todas as vezes que ouvia vozes ao redor do salão, sorrateiramente ia observar os visitantes, que não tardavam a ir embora tão logo a luz do sol deixasse o local.

E ela permanecia ali, imóvel, triste e com finas lágrimas percorrendo o maravilhoso rosto.

***

Naquela madrugada o vento rugia ferozmente, balançava a copa das árvores e fazia com que as folhas que iam se desprendendo dos galhos bailassem no ar. Não era sinal de chuva, pois o céu se mantinha estrelado e com luar. As pessoas de pouca fé não conseguiriam entender que havia magia no ar.

O silêncio da madrugada foi cortado pela chegada de um cavalo que trazia um moribundo, o homem estava trêmulo e quase sem forças de manter-se em pé. Com muito custo, conseguiu entrar no salão, ignorava sua fama de amaldiçoado, em sua terra nunca lhe contaram sobre maldições proferidas ao pé da morte e sob o signo do ódio.

O cavalo se assustou e foi embora assim que o homem desapareceu na escuridão. Após alguns passos, ele caiu ao chão de joelhos e procurou desesperadamente em seu alforje uma lanterna, e assim que a encontrou, pôde examinar o local que havia escolhido para pernoitar.

Ao que tudo indicava o lugar estava mesmo abandonado, confirmando suas suspeitas de quando o avistou instantes atrás ainda na estrada. Com sorte ele agüentaria até o amanhecer, quando poderia procurar um médico que aceitasse curar sua enfermidade, uma ferida que estava aberta e que não doía mais. Os médicos de sua terra o haviam desenganado, mas ele se recusou a acreditar que deixaria de viver tão precocemente e movido pelo desespero, resolveu procurar por ajuda em outro lugar.

Recostou-se em uma antiga poltrona e tentou adormecer, sentiu que não estava mais com febre, mau sinal… Fechou os olhos e permaneceu em silêncio, minutos depois uma voz feminina sussurrava:

“Salve-me…”

Ele não se alterou, nem sequer abriu os olhos, imaginou que já estava delirante e tentou novamente adormecer. O cansaço da viagem o fez dormir rapidamente e em seu sono pesado acabou por ter um longo sonho.

***

Incrivelmente sentiu que havia se transportado para um outro tempo, um passado distante. O cenário era aquele enorme salão, mas ele estava todo iluminado! Decorado como se ali fosse haver uma grandiosa festa. Homens e mulheres estavam felizes, brindando e saudando um jovem rapaz, que parecia aguardar alguém. Deu mais uma volta em torno do salão e pôde apreciar as cortinas aveludadas, os grandiosos lustres de velas, os garçons servis, carregando delicias em suas bandejas, tudo estava perfeito.

De repente as portas do salão se abriram dando passagem a uma mulher. Todos olharam espantados para a jovem, que vestia apenas uma transparente camisola. O jovem rapaz olhou-a atarantado e sem entender o que significava aquilo tudo, perguntou:

– O que está havendo, meu amor? Por que desceste se ainda não estavas pronta?

– Desci para lhe dizer que não mais unirei minha vida à tua!

– O que disse?

– O que acabaste ouvir! Mande todos voltarem para suas casas! Não haverá mais cerimônia de casamento!

Assim que terminou de proferir estas palavras, a noiva deu meia volta e se preparava para deixar o salão, quando percebeu uma nódoa vermelha em sua camisola, não teve tempo de sentir dor. O rapaz não deixou que ninguém a ajudasse e ameaçava com seu punhal, de ouro maciço, quem tentava se aproximar da jovem.

– Eu te amaldiçôo! Vagarás por este salão vestida de escuridão e não mais verás a luz do sol!

O jovem apunhalou o próprio abdômen enquanto continuava a bradar:

– Sozinha por toda a eternidade, não terás paz!

E então causou um corte no próprio pescoço, deixando a vida de maneira desonrosa. Todos no salão estavam petrificados com aquela tragédia, gritos ecoavam pelo salão, pessoas corriam sem saber o que fazer, até que um homem ajoelhou-se diante dos corpos dos jovens:

– Este salão foi amaldiçoado…

– Acredita nas coisas que ele disse antes de se suicidar?

– O punhal dele… É de ouro, o metal da magia. E a ira com que ele proferiu aquelas palavras finalizaram o encanto.

***

O homem acordou de repente, que sonho estranho! Mal teve tempo de se acostumar de novo com a escuridão e visualizou a jovem mulher do sonho. Estava deitada na pedra branca de mármore olhando fixamente para ele, que sentiu o coração bater forte, não era possível!

Ela estendeu a mão para ele com certa dificuldade e lhe implorou:

– Salve-me!

Ele não sentia medo, estava confuso, não sabia distinguir se ainda estava sonhando ou se estava acordado, fez um esforço sobre-humano para se aproximar daquela mulher que lhe chamava com aflição. Quando conseguiu se aproximar, percebeu que ela não era real, mas também não era fruto de sua imaginação, sentiu o toque gélido de suas mãos em seu ombro e aproximou-se para lhe ouvir dizer:

– Sabes que está para morrer…

Um tanto desalentado, ele concordou:

– Sei…

– Liberte-me! E eu o conduzirei por caminhos suaves.

O vento, que já soprava forte, abriu uma das portas do salão e o frio da madrugada invadiu o ambiente, com o resto de suas forças, ele gritou:

– Eu te liberto! Estás livre da escuridão e pronta para sentir em tua pele o calor do sol e o perdão dos homens de fé!

Ela o abraçou e ele pode sentir o peso do corpo daquela bela mulher ir aumentando pouco a pouco entre seus braços, fechou os olhos e a viu correndo pelos campos, maravilhada com a repentina liberdade.

E então ele adormeceu para sempre…