Conhece-te a ti mesmo

23 04 2012

Ruínas do Templo de Apolo em Delphos - Grécia

Ruínas do Templo de Apolo em Delphos – Grécia.

Os mistérios do universo sempre me fascinaram, sempre tive a curiosidade de saber os porquês dos porquês dos porquês e isso não deve ser à toa…

Então fui atrás da minha curiosidade, sempre guiada pela minha intuição. Li muitos livros, mas ainda sentia que lia e não entendia! A sensação de que as palavras eram literais me perturbava, foi quando li, não recordo o livro tampouco o autor, que o caminho que leva à consciência do universo é um caminho sem volta.

Sinceramente não compreendi o que isso significava, como sem volta?

Somente anos mais tarde me dei conta do seu real significado, principalmente quando li textos de Sócrates, o filósofo grego, onde ele citou sabiamente: CONHECE-TE A TI MESMO.

A meu ver esta frase é a chave para a compreensão de todo o universo!

Só conseguimos compreender as outras pessoas depois que aprendemos a nos conhecer, sem máscaras, sem ilusões. Quando aprendemos a enxergar sem medo nossas qualidades e defeitos, nossos sentimentos e desejos mais profundos, estamos aprendendo também a enxergar o próximo, porque o próximo também tem qualidades e defeitos, também anseia por algo, também sente medo.

Começamos aos poucos a enxergar o mundo à nossa volta e as pessoas que dele fazem parte, de outra forma, mais real, mágica! Aos poucos e naturalmente a sensibilidade vai aflorando até que sejamos capazes de compreender o real significado de um olhar, de uma palavra, um gesto.

É um caminho sem volta sim, pois toda a inocência é perdida, a realidade se mostra totalmente, às vezes de maneira cruel. Por um lado é muito bom, pois estaremos preparados para os acontecimentos, mas por outro… Às vezes é melhor não saber, não intuir e enxergar aquilo que gostaríamos que não fosse real.

Os inocentes são felizes, mas são cegos. Aqueles que conseguem enxergar além do superficial também são felizes, mas de uma felicidade sólida, com os pés fincados no chão, pois antes de tudo conhecem a si mesmos!

* Texto de 2005, época em que eu refletia muito sobre as questões universais e filosóficas, muito antes de me trancar tão profundamente por dentro. Saudades destas reflexões.





Aos 13 de Agosto

13 08 2010

Sexta-feira 13!

Acordou com azia. Mais um dia de trabalho. Aquela semana não acabava nunca? Chegou atrasado para a reunião de líderes, justo a que o diretor da sua área compareceria. Dez minutos antes, perdera a vaga para um engraçadinho que se fingiu de morto e estacionou primeiro. Ele teve o ímpeto de fazer o fingimento se tornar realidade, mas desistiu da idéia porque sabia que já estava atrasado e não queria se tornar um homicida e um desempregado no mesmo dia.

A reunião não poderia ter sido mais terrível, um verdadeiro show de horror, o diretor era tão polido quanto um mastodonte e (pior!) tinha a plena certeza de que era a versão melhorada de Maquiavel nos planos estratégicos. Lamentável…

Quando olhou no relógio já eram duas da tarde e nada dele poder sair para almoçar e respirar um pouco. Então, já que o almoço tinha ido para o espaço, resolveu sair tão logo as dezoito horas chegassem.

Anoitecia quando pisou na calçada, deu um longo suspiro. Que dia!

Manobrava o carro quando se deu conta de que havia esquecido o celular em sua mesa, voltou para buscar rapidamente.

Minutos depois, já cansado, entrou no carro e não percebeu que haviam aproveitado sua distração.

Parou no farol vermelho e ao olhar no espelho percebeu que não estava sozinho. A primeira reação foi de incredulidade, não entendia como alguém tinha entrado em seu carro.

Mas assim que sentiu o canivete em seu abdômen, se lembrou de que deixou a porta do carro destravada, confiante de que não demoraria na operação de ir e voltar.

– Entra à esquerda na próxima rua e nem um pio, senão te furo!

– Ca-calma… Já estou entrando… Mas é uma rua sem saída…

– É esta mesmo!

Chegando na ruazinha mal iluminada, agilmente escolhida pelo ladrão, sentiu que assim como o dia, a noite também seria longa. O larápio exigiu que ele saísse do carro e deixasse tudo, celular, carteira, documentos e até o paletó. Pensando bem, a gravata também era bonita…

Obedeceu a todas as exigências sem protesto algum, já tentando buscar na memória os números de telefone do seguro.

De tão obediente que fora, o ladrãozinho de voz fina desconfiou de suas intenções e tratou de retardar a sua busca por qualquer tipo de ajuda.

Saiu decidido do carro e então ele pôde ver que o assaltante era bem alto e corpulento, forte demais para uma briga justa, além de estar com um canivete.

Quando o assaltante saiu da viela com os pneus cantando, ele estava caído no chão com um corte não muito profundo na barriga, mas o suficiente para sangrar e apavorá-lo.

A dor muito fina que sentia foi suficiente para retardar o seu passo. Teve que quase se rastejar até a avenida mais próxima e implorar para que o ajudassem. Os transeuntes andavam apressados e não queriam se envolver. Só depois de quase meia hora uma senhora parou e o ajudou a chamar um táxi.

O caminho para o hospital foi um capítulo à parte. Os minutos não passavam e os segundos desfilavam vagarosamente pirracentos, gozando de sua dor. Suava frio. Perdia sangue. Estava exausto.

Quando enfim chegou ao hospital, foi medicado e levou os pontos necessários. Foi liberado em seguida, com uma receita repleta de remédios e recomendações.

Agora a segunda parte. Avisar a seguradora do roubo do automóvel e em seguida procurar uma delegacia para o boletim de ocorrência. Com a seguradora foi relativamente rápido, sem contar os quarenta e cinco minutos de espera ouvindo uma irritante musiquinha. Mas na delegacia… A espera foi grande, o delegado estava em uma mega operação para prender uma quadrilha de assaltantes que estava lhe tirando o sono desde Abril. Do ano retrasado.

Quando chegou em casa e finalmente foi dormir, eram exatamente vinte e três horas e cinqüenta e oito minutos. Foi então que se deu conta. Faltavam dois minutos para o seu aflitivo dia acabar. Era uma sexta-feira, 13 de Agosto.

***

Texto publicado originalmente no blog “Soltando o Verbo” e desempoeirado a pedidos.





Nostalgia

25 02 2010

Escrita

Escrever é preciso. Para não enlouquecer, para refinar as idéias, para desabafar. Exercício altamente recomendado por psicanalistas aos seus pacientes e por professoras sensatas aos seus aluninhos.

Faço parte do segundo grupo, mantenho o hábito de escrever desde os primórdios. Comecei rabiscando as letras do alfabeto nos cadernos de receitas da minha mãe. Na época renderam muitas broncas, mas hoje ela guarda estes cadernos rabiscados como relíquia da minha infância.

Mais tarde encontrei no sótão um antigo livro de poesias do Castro Alves, obra completa. A menina de seus dez anos não entendia um terço do que lia naquelas páginas e ficava horas procurando o significado no dicionário. Depois reescrevia tudo com as palavras que compreendia.

Mas e as rimas?

Não importavam, o objetivo naquele momento era entender a mensagem do autor.

Depois vieram as recomendações de leitura da série Vagalume, foi quando conheci Marcos Rey e Pedro Bandeira. Agora não me contentava em apenas ler, tinha que eu mesma criar as minhas histórias mirabolantes e foi o que fiz aos doze anos.

Há pouco tempo encontrei todos os diários desta época e os originais do meu primeiro “romance”, se é que se pode chamar assim uma história fantasiosa de criança. Foi maravilhoso relembrar alguns momentos, pessoas que inspiraram meus primeiros personagens, links há muito esquecidos.

Um exercício saudável para reafirmar o poder da escrita, principalmente para os que também escrevem.

Por quê?

Mesmo após anos e anos, relendo os diários recordei cenas e momentos como se os tivesse revivido na mesma proporção.

Hoje os sentimentos expostos nos textos são diferentes, não mais verdadeiramente inocentes, sempre acompanhados de uma pitada de malícia ou alguma idéia implícita.

É o preço da vivência, do tempo que inexoravelmente passa, substituindo a ingenuidade pela palavra certa, afiada e premeditada para causar algum sentimento em quem lê.

Muitos chamam de técnica, eu de amadurecimento literário.

E assim, continuo exercitando, mesmo com textos que jamais serão lidos por outros olhos além dos meus. São textos que daqui a alguns anos proporcionarão outros momentos nostálgicos. E assim sucessivamente.





Arrebatador!

12 02 2010

“O corpo tem seu próprio modo de saber, um conhecimento que tem pouco a ver com lógica, e muito a ver com verdade; pouco a ver com controle, e muito a ver com aceitação, pouco a ver com divisão e análise e muito a ver com união”.

Marilyn Sewell

Hoje eu quero um corpo. Nada de inteligência, QI elevado ou papos sobre neurociência avançada. Hoje será apenas anatomia.

Fútil? Não sei. Visceral seria mais adequado, muito mais Baco do que Hermes. Corpo sobrepondo mente, sensações prevalecendo sobre valores.

Quero um coração pulsando acelerado, não de paixão e sim de completo êxtase. E que seja seguido de olhos sagazes, não para mirarem o desejo, mas para enxergarem além.

A vontade de hoje é encontrar Zeus ao modo de Baco, trilhando o caminho frenético da loucura. Pegarei emprestado o seu estado de espírito tresloucado para compreender as mais profundas verdades da essência humana.

Talvez desta forma eu consiga amainar a chama que arde no peito e sacie a sede de liberdade, que faz de mim uma eterna buscadora.

A ordem de hoje é equilibrar as horas celibatárias com momentos de completa luxúria, assumindo o papel de bacante que me cabe e concedendo a um escolhido a oportunidade de comungar com os Deuses através do santuário do meu corpo.

Através dos ritos dos antigos mistérios quero provar a sensação de morte e encontrar a essência divina, transcender os limites da mente consciente. Neste momento nada de harpas ou anjinhos flutuando sobre nuvens, quero ouvir o som de tambores!

E quando retornar desta jornada, desejo ter a sensação de que o som dos tambores nada mais eram do que as batidas do meu coração.

A juventude de Baco

” The Youth of Bacchus” (1884), de William Adolphe Bouguereau.





Abecedário de Promessas

22 12 2009

2009 se preparando para dizer “FUI!”. Nestes derradeiros dias do ano muitas pessoas refletem sobre o ciclo que se completa e fazem o balanço do famoso “Foi Bom”, “Foi Ruim”.

Eu também não escapo destas reflexões e posso dizer que, de um modo geral, 2009 foi um ano excelente, onde conquistei muitas coisas, a maioria de forma inesperada, o que foi ainda melhor.

E prá 2010, seguindo a linha da minha religião (A vida é uma festa!) planejei algumas ações, são elas:

Amar! Não apenas pessoas, amigos, mas também projetos, livros, lugares, guloseimas…

Beber! Porque eu também sou filha de Deus!

Celebrar! Vitórias, aprendizados, conquistas, a sexta-feira…

Dançar! Muito, bastante, demais.

Escrever! Muito, bastante, demais.

Fotografar! Todos os momentos que merecem ser eternizados.

Gastar! Conscientemente.

Humanizar! O mundo precisa disso.

Inventar! Novas formas de se divertir e ser feliz.

Jejuar! Salada de jiló ou quiabo no almoço? Vamos jejuar!

Kibon! Sorvete, sorvete, sorvete!

Ler! Muito mesmo, nunca é demais.

Música! Adoro!

Nadar! Aprendi, mas tenho que aperfeiçoar.

Ouvir! O que vale a pena ser ouvido.

Priorizar! A família, as verdadeiras amizades, os projetos pessoais.

Questionar! Jamais me conformar com o óbvio, buscar respostas concretas.

Rir! De tudo e de todos, contudo consciente da hora de ser séria.

Sacudir! A poeira e seguir em frente.

Tolerar! Algumas criaturinhas, modelos de como NÃO levar a vida.

Universo! Continue sempre conspirando a meu favor!

Viajar! Prá perto, prá longe, em pensamento…

Www! Ficará rapidinha lá em casa, prometo!

Xeque-mate! Em tudo o que não servir mais, considere aqui projetos, fatos e crenças.

Yoga! Tudo de bom!

Zuar! Os que são muito críticos ou negativistas, xô! Sai prá lá!

E vambora prá 2010! 😉





A Anti-Heroína Incompreendida

11 05 2009

É um rótulo enigmático, mas totalmente adequado para o momento. Aos curiosos, tento dissecar a alma da protagonista que não é tola ou boazinha o suficiente para ser chamada de mocinha e nem tão malévola a ponto de ser tachada de vilã. Esta é uma anti-heroína. Sempre no meio do caminho. Sempre defendendo seus pontos de vista. Disso jamais abre mão.

Não tente enganá-la, ela sabe. Se sucumbir aos seus encantos é porque de alguma forma isso será proveitoso para ela também.

Lembre-se: Você não está lidando com a mocinha da história. Pare para pensar que talvez você esteja sendo manipulado. Ela conhece seus pontos fracos, aqueles que você lhe contou ao pé do ouvido, quando estava totalmente convencido de que ela estava bêbada. Bêbada? Só se for propositalmente. Só se perceber que seu objeto de desejo é potencialmente mais fraco e adora ser o dono da situação.

Na grande maioria das vezes a anti-heroína é orgulhosa e faz tudo para manter o seu orgulho intacto. Não tente ser mais esperto do que ela. Não há nada mais detestável do que um amador querendo se passar por profissional. Mentiras e omissões são sinônimos para ela.

De novo o conselho: Você não está lidando com a mocinha da história. Se a sua intenção é apenas levá-la para a cama, diga a ela! Com certeza não se fará de rogada se você souber cativá-la. Pode apostar. Mas não minta dizendo que ela é a única, se ela não for. Ela saberá a verdade e mesmo que seja uma única noite descompromissada, não vai perdoá-lo por subestimá-la desta forma. Anti-heroínas não suportam serem subestimadas.

Se você não está preparado para uma mulher forte, esqueça. Aqui cabe o ditado:

“Ame-a ou deixe-a”.

Espero que agora tenha me feito entender.





Inevitável monólogo

17 03 2009

O Pensador

O Pensador” (Detalhe) , de Auguste Rodin (1840-1917).

 

– Estou cansada. Chega por hoje. Preciso dormir e sonhar que está tudo bem.

“Você sabe que não está tudo bem”

– Mas é claro que está tudo bem!

“Ele te amava, só estava bêbado…”

– Não! Ele não me amava! Ele me bateu! E se ferrou bonito!

“Não justifica o que você fez”

– O que fiz foi para me defender!

“O que você fez foi covardia, havia outras maneiras de resolver o assunto”

– Que maneiras?

“Você podia ter procurado ajuda”

– Quem iria ajudar uma prostituta?

“Antes da prostituta vem o ser humano, a mulher…”

– A mulher… Fala como se não soubesse o crédito que uma prostituta tem… Nenhum!

“Vá na polícia e conte a verdade, se entregue”

– Você só pode estar louca! Jamais farei isso!

“É o correto”

– É o correto? Amargar anos numa penitenciária por um homem que me bateu?

“Você quer dormir e sonhar?”

***

Naquela madrugada e em outras que se seguiram eu não dormi. Não sonhei.

Ela não deixava! Horas a fio me perturbando com esta história. Sempre a mesma história. Até o dia em que eu cansei de ouvir a sua voz a me acusar.

Foi um único tiro. Depois o coma. Assim consegui silenciá-la.





A louca de hoje

16 02 2009

Dor. É a única coisa que eu sinto. Queria tanto uma beberagem mágica que fizesse a dor passar. Não a dor física, esta até me ajuda a perceber que ainda estou viva e que meu coração, apesar dos pesares, ainda bate no peito. Forte, intenso, profundo, agoniado, sufocado. Cansado, mas ainda relutante em ceder e me proporcionar a paz eterna.

Esta noite eu rezei como há muitos anos não rezava, desde que passei a não mais acreditar em crenças coletivas, moldadas por dogmas nos quais eu não acredito. Rezei para que algum mega cometa ou meteoro incandescente cruzasse a rota da Terra e acabasse com tudo, definitivamente.

Em meio às preces, imaginei uma garotinha esperando o sinal fechar para os carros para então, conduzida por sua mãe, atravessar a rua e continuar o caminho para a escola. No momento em que o sinal fechasse, o meteoro colidiria com nosso planeta e então tudo estaria acabado.

E eu teria feito um favor a ela se os Deuses tivessem ouvido as minhas preces.

Mas como o sol se ergueu no horizonte trazendo um novo dia, entendi que a prece de uma alma decepcionada com este mundo não foi suficiente para que os Deuses decidissem acabar com tudo.

Agora a garotinha vai crescer, vai se tornar uma mulher linda, inteligente e talentosa. Perfeito. Espero que ela consiga conviver com isso. Torcerei para que ela atinja o equilíbrio que eu persigo e que jamais alcanço. Desejo que o meio termo que satisfaz a todos possa satisfazê-la também.

Quando o dia de hoje ceder lugar a mais uma noite, mudarei os rumos das minhas preces. Rezarei para que ela jamais encontre em seu caminho pessoas que invejem suas qualidades e que queiram roubar para si a sorte destinada a ela.

Que jamais cruze seu olhar com alguém que enxergue apenas as curvas do seu corpo. Que seus amigos sejam realmente amigos e não pessoas interessadas em seu próprio prazer. Que ela jamais se depare com a podridão que exala das pessoas mal intencionadas, que se aproximam para machucá-la e deixá-la ainda mais triste.

Que ela possa sobreviver a esta selva de concreto, infestada de pessoas egoístas e hipócritas, que possa brilhar e ser feliz, apesar de tudo isso. Que o seu sucesso incomode mesmo, bastante, demais! Mas que ainda assim ela nunca deixe de ser quem ela é. Que seja fiel aos seus sentimentos, sejam eles nobres ou incontrolavelmente torturantes.

Que suas crises de pânico sirvam para deixá-la fortalecida, pois ela acabará entendendo que não adianta rezar para que tudo acabe. O mundo não parará de girar se ela sentir dor, se ela entender que a grande verdade a ser descoberta é que estamos neste mundo para termos nossas verdades testadas o tempo todo.

Não adianta rezar meu anjo, os Deuses estão surdos para nós. Não me odeie por desejar que tudo se acabe. Sou a louca de hoje, mas posso ser a sábia de amanhã.

Mulher de braços cruzados

“Femme aux bras croisés” (1901-02), de Pablo Picasso.





One by One

1 02 2009

Medo. Medo não, pavor! Pânico? Não sei… A verdade é que deixar de sentir os pés no chão da piscina ou de um rio ou mesmo do mar, sempre me apavorou. Entrar em um terreno desconhecido e com possibilidade de perder o controle sempre mexeu demais comigo. Em todos os aspectos.

Decidir me libertar de um dos meus medos foi uma atitude tomada em meio a um belo porre de vinho barato, mas estou seguindo em frente. E não pensei muito antes de me matricular em uma academia para ter aulas de natação.

Chegando à academia, encontrei no vestiário uma japonesa que também faz aula. De touca e óculos cor de rosa, confesso que ela aliviou o meu receio de pagar mico saindo do vestiário vestida a caráter para minha primeira aula.

O primeiro exercício foi atravessar a piscina segurando nas barras laterais – Para sentir a profundidade da piscina. – indicou a professora. Devagar, mas constante, fiz o que pediu e cheguei viva até o outro lado.

O segundo exercício foi o de respiração. Este causou estranheza no início, mas depois me acostumei a soltar bolinhas pela boca embaixo d’água. Quando a professora percebeu que já estava dominando os exercícios de respiração, me entregou a temida pranchinha e pediu que eu flutuasse na piscina, fazendo o exercício de respiração que havia acabado de aprender. Depois de um tempo a pranchinha foi trocada por um minúsculo flutuador e depois por nada, eu deveria flutuar sozinha!

Natação

Depois disso foi a vez de bater os pés segurando na escadinha da piscina. E novamente os exercícios com a pranchinha e o flutuador até chegar ao final da aula nadando! Fiquei surpresa ao perceber o quanto nadar é instintivo. Bastaram algumas orientações e disciplina. Foi uma experiência excelente para uma primeira aula. Agora a questão é aperfeiçoar e ganhar cada vez mais confiança.

O primeiro passo foi dado, ou melhor, o primeiro mergulho foi dado. Um medo a menos, uma vitória a mais. O próximo passo? Passar para os próximos medos e eliminá-los. Um a um.

Seguirei fielmente os conselhos de um velho amigo quando estávamos bêbados em uma mesa de bar:

– Liberte-se! Entre em erupção…





Feliz Dia dos Mortos!

2 11 2008

Finados, mortos, falecidos, desintegrados, espíritos… Quem são estes que não mais existem e que ainda assim mexem com o pensamento de muitos de nós?

O que fazer quando as lágrimas já não são mais suficientes para afastar o pensamento que insiste em navegar em lembranças nem sempre agradáveis? É difícil olhar para si mesmo e se dar conta da necrópole que se formou.

Muito se engana quem acredita apenas na morte física, pois muitas são as suas formas, há diversas maneiras de nos anularmos e jogarmos a toalha no chão.

Alguns casos são temporários e logo nos damos conta do quanto estamos desistindo fácil demais dos nossos objetivos. Mas nem sempre é assim.

Por exemplo, a dona de casa que abdicou dos seus sonhos para criar os filhos, vivendo para eles e se esquecendo de si mesma. Ou mesmo a noiva ou noivo que, abandonados no altar, se fecharam para todas as outras possibilidades de felicidade. Muitos são os exemplos, muitas são as histórias e os motivos, mas ainda assim nada que justifique se conformar.

Será que aquele que no auge do seu egoísmo, achou que não precisava de mais ninguém e se isolou de todos, pode gritar aos quatro ventos que vive em paz consigo mesmo?

Vivemos para aprender a cada dia com os nossos acertos e com os nossos erros, para compartilhar, amar, sonhar… Quem está fechado para estas impressões, está fechado para a vida e, portanto, morto.

Para estes só tenho a desejar não um bom feriado, prolongado na maioria das vezes, mas um feliz dia dos mortos.