Retrospectiva de Leituras 2012

25 12 2012

Mais um ano se passou. 2012 foi um ano de muitas conquistas, grandes aprendizados e a certeza de que ainda há muito o que aprender. Não alimentei a mais remota expectativa de que atualizaria este espaço ao longo do ano, porém há algo em que reluto não publicar: a lista de livros que consegui ler neste período. Está bastante enxuta para uma escritora – confesso – porém tentei ser o mais eclética possível, é parte da minha estratégia pessoal.😉

– O guia do mochileiro das galáxias – Douglas Adams

– O restaurante no fim do universo – Douglas Adams

– A vida, o Universo e tudo o mais – Douglas Adams

– Até mais e obrigado pelos peixes! – Douglas Adams

– Praticamente inofensiva – Douglas Adams

– Os homens que não amavam as mulheres – Stieg Larsson

– A menina que brincava com fogo – Stieg Larsson

– A Rainha do castelo de ar – Stieg Larsson

– Gen Pés Descalços – O nascimento de Gen, o trigo verde – Keiji Nakazawa

– Gen Pés Descalços – O trigo é pisoteado – Keiji Nakazawa

– O jardim de ossos – Tess Gerritsen

– A Cabana – William P. Young

– Os arquivos de Sherlock Holmes – Sir Arthur Conan Doyle

– O livro da Bruxa – Roberto Lopes

– O guia do viajante inteligente – Erik Torkells

– O mistério da cripta amaldiçoada – Eduardo Mendoza

– Fahrenheit 451 – Ray Bradbury

– Steve Jobs – A Biografia – Walter Isaacson

– O nome da Rosa – Umberto Eco

– O livro dos Espíritos – Allan Kardec

– O livro dos Médiuns – Allan Kardec

– O Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Luiz Felipe Pondé

– A Revolução dos Bichos – George Orwell

– Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros – Seth Grahame-Smith

– Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída… – Kai Hermann e Horst Rieck

– Alice no país das maravilhas – Lewis Carroll

– O mágico de Oz – L. Frank Baum

– Sex and the City – Candace Bushnell

– Os delírios de consumo de Becky Bloom – Sophie Kinsella

– O diário de Bridget Jones – Helen Fielding

– O Diabo veste Prada – Lauren Weisberger

– A arte da ficção – David Lodge

– As Crônicas de Nárnia – C.S. Lewis

– Manual do Detetive Virtual – Wanderson Castilho

– A Bíblia das Bruxas – Janet e Stewart Farrar

– O Guardião da Meia Noite – Rubens Saraceni

– A Parisiense – Ines de La Fressange

Comecei o ano com “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, série bastante festejada pelos nerds de plantão, tendo até mesmo o dia da toalha para comemorações. É engraçadinha, mas somente isso. Depois do segundo livro as piadas começam a dar sinais de monotonia e acabei lendo somente para fechar a série.

Depois fui apresentada à Lisbeth Salander, da Trilogia Millenium e, sim, virei sua fã incondicional! Nesta série provei um pouco de tudo que mais gosto na literatura: suspense policial, uma personagem feminina inteligente e durona e um enredo com histórias menores interessantes. Vale a pena!

Em certo momento decidi que queria uma série de mangá para chamar de minha e topei com a obra de Keiji Nakazawa (o autor faleceu este ano, no ultimo dia 19) na série Gen, Pés Descalços. Na minha opinião é leitura obrigatória para toda esta geração que não conhece as histórias de horror da segunda guerra mundial, uma lição sobre o que o homem é capaz, para o bem e para o mal. Li apenas os dois primeiros volumes (são dez no total) e gostei bastante.

Motivada pelas lembranças do mosteiro de Varlaan, na Grécia, li “O Nome da Rosa”. É uma leitura difícil, com muitas passagens escritas em latim, com todos os rituais diários de um mosteiro descritos minuciosamente na primeira parte, mas uma vez que se “pega o jeito” da história o enigma sobre a morte dos monges vai te conduzindo para um desfecho interessante.

Me diverti horrores com “O Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” e com “A Revolução dos Bichos”, dois livros que valeu a pena ler e sérios candidatos a uma releitura, qualquer dia desses.

“Eu, Christiane F., 13 anos, drogada, prostituída…”, fez com que eu torcesse desesperadamente pela recuperação da Christiane, mas… Na minha visão os pais deveriam incentivar seus filhos a ler este relato, mostra como a curiosidade pode matar o gato.

Depois de leituras tão densas tomei uma dose de ‘leituras para mulherzinhas’, para dar uma equilibrada. Bridget Jones, Becky Bloom, Carrie e Andrea me fizeram companhia durante um mês. Dos quatro livros gostei mais de “O Diabo veste Prada” e fiquei sem entender como um livro tão sem graça como “Sex and the City” deu origem a uma série tão divertida.

Passeei também pelos campos verdejantes da literatura infantil e eliminei o pecado de não ter lido ainda “O mágico de Oz”, “Alice no país das maravilhas” e “As Crônicas de Nárnia”.

E é isso. Ano que vem tem mais, muito mais!😉





Conhece-te a ti mesmo

23 04 2012

Ruínas do Templo de Apolo em Delphos - Grécia

Ruínas do Templo de Apolo em Delphos – Grécia.

Os mistérios do universo sempre me fascinaram, sempre tive a curiosidade de saber os porquês dos porquês dos porquês e isso não deve ser à toa…

Então fui atrás da minha curiosidade, sempre guiada pela minha intuição. Li muitos livros, mas ainda sentia que lia e não entendia! A sensação de que as palavras eram literais me perturbava, foi quando li, não recordo o livro tampouco o autor, que o caminho que leva à consciência do universo é um caminho sem volta.

Sinceramente não compreendi o que isso significava, como sem volta?

Somente anos mais tarde me dei conta do seu real significado, principalmente quando li textos de Sócrates, o filósofo grego, onde ele citou sabiamente: CONHECE-TE A TI MESMO.

A meu ver esta frase é a chave para a compreensão de todo o universo!

Só conseguimos compreender as outras pessoas depois que aprendemos a nos conhecer, sem máscaras, sem ilusões. Quando aprendemos a enxergar sem medo nossas qualidades e defeitos, nossos sentimentos e desejos mais profundos, estamos aprendendo também a enxergar o próximo, porque o próximo também tem qualidades e defeitos, também anseia por algo, também sente medo.

Começamos aos poucos a enxergar o mundo à nossa volta e as pessoas que dele fazem parte, de outra forma, mais real, mágica! Aos poucos e naturalmente a sensibilidade vai aflorando até que sejamos capazes de compreender o real significado de um olhar, de uma palavra, um gesto.

É um caminho sem volta sim, pois toda a inocência é perdida, a realidade se mostra totalmente, às vezes de maneira cruel. Por um lado é muito bom, pois estaremos preparados para os acontecimentos, mas por outro… Às vezes é melhor não saber, não intuir e enxergar aquilo que gostaríamos que não fosse real.

Os inocentes são felizes, mas são cegos. Aqueles que conseguem enxergar além do superficial também são felizes, mas de uma felicidade sólida, com os pés fincados no chão, pois antes de tudo conhecem a si mesmos!

* Texto de 2005, época em que eu refletia muito sobre as questões universais e filosóficas, muito antes de me trancar tão profundamente por dentro. Saudades destas reflexões.





Retrospectiva de Leituras 2011

19 12 2011

Confesso que este ano não fui assídua na atualização do blog, vários projetos em andamento me fizeram não dar a devida atenção a este espaço. Porém como já é de praxe, apresento a retrospectiva de leituras deste ano, afinal até dá para adiar a escrita, mas a leitura não!😉

– A Batalha do Apocalipse – Eduardo Spohr

– Banquete com os Deuses – Luis Fernando Veríssimo

– Édipo Rei – Sófocles

– Fábulas – Esopo

– Micromegas e outros contos – Voltaire

– Orgias – Luis Fernando Veríssimo

– Tratado sobre a Tolerância – Voltaire

– Dr. Negro e outras histórias de terror – Arthur Conan Doyle

– Comédias para ler na escola – Luis Fernando Veríssimo

– O Jardim do Diabo – Luis Fernando Veríssimo

– Palavras de Sabedoria – Dalai Lama

– Assassinato na Academia Brasileira de Letras – Jô Soares

– Morangos Mofados – Caio Fernando Abreu

– Memória de minhas putas tristes – Gabriel Garcia Marquez

– Os devaneios do caminhante solitário – Jean Jacques Rousseau

– Piratas de Dados – Bruce Sterling

– De Roswell a Varginha – Renato Azevedo

– Água Viva – Clarice Linspector

– Uma breve história do Mundo – H.G. Wells

– A queda de Atlântida – A teia da luz – Marion Zimmer Bradley

– A queda de Atlântida – A teia das trevas – Marion Zimmer Bradley

– Os Ancestrais de Avalon – Marion Zimmer Bradley

– A Megera Domada – William Shakespeare

– O morro dos ventos uivantes – Emily Brontë

– Como manipular pessoas – Robert-Vincent Joule e Jean-Léon Beauvois

– Os Corvos de Avalon – Marion Zimmer Bradley

– O médico e o monstro – R. L. Stevenson

– Uma estação no inferno – Artur Rimbaud

– A Orgia dos Duendes – Bernardo Guimarães

– A Cartomante – Machado de Assis

– Perdas e Ganhos – Lya Luft

– A Casa da Floresta – Marion Zimmer Bradley

– A Senhora de Avalon – Marion Zimmer Bradley

– A Sacerdotisa de Avalon – Marion Zimmer Bradley

– Tempos de Algória – Richard Diegues

– A fantástica literatura Queer Vol.Vermelho – Vários Autores

– Contos e Lendas do Egito Antigo – Brigitte Évano

– Histórias de fantasmas – Charles Dickens

– Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley

– A Guerra dos Tronos: As crônicas de gelo e fogo – George R.R. Martin

– A droga do amor – Pedro Bandeira

– O fantasma de Canterville – Oscar Wilde

– A esfinge sem segredo – Oscar Wilde

– Histórias da meia noite – Machado de Assis

– O livro maldito – Christopher Lee Barish

– Quebra Tudo! – Ricardo Jordão

– Contos de Fadas – Perrault, Grimm, Andersen e outros

– A noite das Bruxas – Agatha Christie

– A fantástica literatura Queer Vol. Laranja – Vários Autores

– Dália Negra – James Ellroy

– Sobre histórias de Fadas – J. R.R. Tolkien

– O Perfume, a História de um assassino – Patrick Suskind

– A Paixão segundo G. H – Clarice Linspector

– Extraneus 1: Medieval Sci-Fi – Vários Autores

– Extraneus 2: Quase Inocentes – Vários Autores

– Extraneus 3: Em nome de Deus – Vários Autores

O ano de leituras começou bem com a “Batalha do Apocalipse”, de Eduardo Spohr, um livro com enredo longo, mas muito interessante e bem amarrado, que merece toda a badalação feita em torno dele.

Comecei a ler também livros dos filósofos do iluminismo, Voltaire e Rousseau. Voltaire, sempre afiado e irônico com suas “Micromegas e outros contos”, mas que na verdade conquistou minha atenção com o “Tratado sobre a Tolerância”. Já seu desafeto Rousseau, cujas linhas me fizeram imagina-lo como um filósofo incompreendido e constantemente perseguido por inimigos, me ganhou pela empatia, curti muito “Os devaneios do caminhante solitário”. Na verdade meu intuito é entender o pensamento destes filósofos como parte da pesquisa para um romance que, se tudo correr conforme o planejado, será escrito em 2012.

Foram muitas leituras boas em 2011, mas a que mais gostei foi, sem dúvida “A queda de Atlântida – A teia da luz”, da Marion Zimmer Bradley. Na verdade este é o primeiro livro do que costumo chamar de mega saga de Avalon, onde ao longo de 11 volumes os fãs das histórias de Sacerdotisas, Magos e busca espiritual conhecem a trajetória de diversos personagens que, após muitas vidas, aparecem renascidos nas Brumas de Avalon.

Foi muito legal ler também “Tempos de Algória”, do Richard Diegues, primeiro livro dentro do Universo de Todos os Olhos e que faz crossover com o Universo da Serpente Sagrada, cenário do meu livro com sabor de mitologia grega, a ser publicado em 2012.

Fui fisgada pela saga da Guerra dos Tronos! Apesar de ter lido apenas o primeiro volume, deixo a promessa de ler os demais no próximo ano, esta sei que não será difícil de cumprir.

Ah! E ganhei de presente de um colega de trabalho muito talentoso e querido (bjitos Douglas!) o livro “Quebra Tudo!”, do Ricardo Jordão, com dicas maravilhosas para o dia a dia do mundo corporativo e por que não também para os demais aspectos da vida?

E descobri que além de curtir romances policiais, agora também me apaixonei por romances policiais no melhor estilo noir. O culpado? James Ellroy com seu romance “Dália Negra”. Claro que já tenho outro romance dele nos planos de leitura de 2012: “Los Angeles, Cidade Proibida”. Aposto que será diversão garantida!

Outro livro que veio quase na sequencia de leituras foi “O Perfume, a História de um assassino”, do Patrick Suskind, uma história muito bem elaborada, com descrições perfeitas. O leitor quase pode sentir os aromas descritos por Suskind, maravilhoso!

E é isso. Ano que vem tem mais, muito mais!😉





O Santeiro

24 09 2011

Andava pensativa pelo cemitério naquela manhã de Domingo, havia tempos que estava em dívida com sua mãe. Sua sepultura estava abandonada e as flores há muito deviam estar murchas. Preferiu a solidão para a tarefa, não se importando com o intenso sol matinal a lhe convidar para aproveitar o burburinho da cidade.

Chegando à sepultura teve uma grata surpresa, tudo estava em perfeita ordem. Diversos tipos de flores rodeavam a lápide e ao lado uma escultura de madeira de Santo Antônio repousava, como que abençoando o descanso de sua mãe. Olhou ao redor ainda na vaga esperança de encontrar alguém que soubesse lhe dizer quem havia feito aquele mimo póstumo à sua mãe.

Ajoelhou-se diante da lápide, deixou suas flores próximas à figura do santo e rezou demoradamente. Para ela era como um ritual, sempre que tinha um problema de difícil resolução ou que se encontrava indecisa quanto aos rumos que deveria tomar, visitava o cemitério e rezava por sua mãe. Quando a deixava se sentia mais leve e então o pensamento começava a clarear, sempre lhe apontando a melhor saída. Jamais conhecera seu pai, mas sempre teve o apoio incondicional da mãe, uma bela nordestina que veio desbravar a metrópole em busca de uma vida melhor, vida esta que o pequeno lugarejo onde nasceu não lhe proporcionava.

Terminando suas preces foi se retirando lentamente, mas parou quando avistou um dos coveiros do cemitério.

– Moço, por acaso viu se alguém veio visitar aquele túmulo recentemente? – Disse apontando para a florida lápide.

– Oi dona! Veio sim, foi um senhor que inda ontem deixou esse mundaréu de flor no túmulo.

– E quanto ao santo? Sabe se foi ele também?

– Foi sim. Vai ver sabia que a falecida era devota de Santo Antônio.

Tudo aquilo soava muito estranho, ela nunca soube que a mãe era devota de santo algum, muito pelo contrário! Sempre se mostrou avessa à religião e se esquivava de comparecer à igreja, principalmente em casamentos, o que era até embaraçoso de explicar aos familiares e amigos.

Ainda caminhava pensativa quando o coveiro, ao ver sua estranheza, acrescentou na tentativa de ajudar:

– Ele deve ter trazido o santo ontem, das outras vezes ele só trouxe flores…

– Das outras vezes?

– É… – Disse o coveiro um tanto arrependido, tentou ajudar e agora estava à mercê da curiosidade crescente da jovem, mas ainda acrescentou:

– Vejo ele por aqui todo dia treze.

Apesar de ainda atordoada com o mistério que se formava, agradeceu ao coveiro e tomou o rumo de casa. Tinha os seus próprios problemas, mas tão logo os resolvesse ia procurar pela caixa de documentos da mãe, talvez ali pudesse encontrar respostas para o enigma.

Em alguma destas janelinhas iluminadas que existem aos montes pela cidade e que abrigam a solidão de tantas pessoas, um senhor estava debruçado na sacada observando a cidade que nunca para. Quem o visse naquele instante não imaginaria o que ia em seus pensamentos nos últimos meses. De repente foi inundado por recordações que ele supunha já resolvidas em seu coração. Bastou ler um aviso de falecimento em um jornal antigo para que tudo viesse à tona. O nome era bastante comum: Maria Inês. Mas o sobrenome não deixou dúvidas sobre a identidade daquela que modificou tão profundamente a sua vida: Bianco de Castro. Checou a data de nascimento e então suas dúvidas se dissiparam, era mesmo a sua Inês. Sua? Não, ela não era sua… Na verdade ela nunca havia sido verdadeiramente sua.

Relutou o máximo que pôde para não se lembrar daquela noite, não queria perder o controle novamente, mas foi em vão. As cenas do seu passado em um lugarejo do nordeste desfilaram por seus pensamentos sem pedir licença e pouco se importando com sua reação pesarosa.

Naquele tempo eram tão jovens, estavam apaixonados e em breve se casariam. Sabiam que seria difícil viver naquele lugarejo tão precário, mas planejavam se mudar para uma cidade maior, onde as oportunidades eram melhores. Ela costurava muito bem e ele havia aprendido com o pai a arte de esculpir em madeira. Os dois tinham o seu ofício e fariam uso dele para garantir um futuro melhor.

João estava especialmente alegre naqueles dias, havia terminado uma importante encomenda para a única igreja de sua cidade, uma imagem de Santo Antônio feita em madeira de imburana. Até então aquela era a sua obra-prima.

O dia do casamento havia chegado rapidamente e, como manda a tradição, ao cair da noite João foi aguardar por sua noiva no altar da pequenina igreja. Olhou orgulhoso para todos os parentes e amigos que chegavam para testemunhar sua união com Inês.

Porém os minutos passavam depressa e nada da noiva aparecer. Discretos cochichos começavam a ecoar pela igreja e João percebeu que algo estava errado, contudo não deixou o altar e aguardou nervosamente por sua Inês. Duas horas e meia se passaram até que a mãe da noiva chamou João na sacristia e aos prantos lhe mostrou um bilhete:

Peço desculpas pela vergonha que lhes faço passar, mas não posso me casar. Fiquem com Deus. Inês.

João não podia acreditar nas míseras linhas que acabava de ler, por que Inês o havia abandonado? O que aconteceu com o amor que dizia sentir por ele?

Os familiares saíram atordoados da igreja, os convidados pediam explicações, mas a única informação que obtinham era de que não haveria mais casamento, pois a noiva partiu e não disse para onde. O pai de Inês não se conformou com a atitude da filha e reuniu várias pessoas para procurarem por ela nos limites da cidade. Não deveria estar longe, pois o ônibus que parte para a capital havia passado de manhã e Inês ainda estava em casa nesta hora, ele sabia. Ela estava estranha, pensativa e com ar tristonho, tanto ele quanto sua esposa haviam reparado, mas atribuíram ao nervosismo natural das noivas.

Somente dias depois foi descoberto que Inês partiu para São Paulo acompanhada de Tenório Bianco de Castro, filho de um rico fazendeiro da região, que também não se mostrava nada contente com a união do seu herdeiro com uma costureira.

João enlouqueceu perante esta revelação, em diversos momentos percebeu o interesse de Tenório em sua noiva, mas confiava em Inês, jamais imaginou que ela pudesse sucumbir às suas falsas promessas.

Em um momento de desespero, invadiu a igreja olhando com ferocidade para a imagem de Santo Antônio, que ironicamente emanava calma e paz, tudo o que ele não possuía dentro de si naquele momento.

Com muito custo fez a pesada escultura tombar ao chão, produzindo um enorme barulho. O padre e o sacristão vieram imediatamente ver o que estava acontecendo e testemunharam um João transtornado a golpear com um machado a escultura que havia feito com tanta dedicação. Ainda tentaram conte-lo, mas ele não ouvia, estava consternado, precisando deixar esvair toda a decepção e vergonha que sentia por amar uma mulher que não merecia o seu amor.

Esta passagem sombria na vida de João o transformou para sempre, nunca mais foi o mesmo, nunca mais sorriu, nunca se esqueceu. Nunca. Na cidade ficou conhecido como João de Santo Antônio, alusão ao trágico acontecimento na igreja. Os habitantes da cidade passaram a temê-lo e ele naturalmente foi se esquivando da companhia das outras pessoas, preferindo se recolher em sua dor.

A cada acesso de fúria que tinha quando era atordoado pelas lembranças, saia em busca de madeiras de talhe fácil, amolava suas ferramentas e trabalhava arduamente em esculturas que deslumbravam os olhos dos compradores, tanto pela perfeição quanto pelos minuciosos detalhes. Foi a maneira que encontrou de conter a parte ferida do seu coração, compensando a solidão que sentia e que não superava, transformando dor em arte.

Os anos passaram e ele adquiriu reputação entre os escultores, sendo frequentemente convidado a participar de exposições. As encomendas em série começaram a aparecer e quando achou que deveria, mudou-se para São Paulo adotando o codinome com o qual ficou conhecido em sua terra. Contudo se recusava terminantemente a esculpir o santo, alegava motivos pessoais.

Numa tarde em que estava trabalhando em mais uma encomenda, avistou um jornal velho ao lado da escultura que acabava de terminar. Ao acaso o pegou para retirar o excesso de betume na base da estatueta, foi quando avistou o nome que tanto o perturbava. Parou a operação e leu o aviso de falecimento, que ocorrera no dia 13 de Junho.

Não foi difícil para ele descobrir o local de sepultamento e desde então, a cada dia treze passou a visitar o túmulo, para se fortalecer e reafirmar em quem havia se transformado graças à traição daquela mulher. Se não fosse por ela, não seria capaz de se superar a cada escultura, não daria tanta importância aos detalhes, não se esforçaria para ser o melhor e fazer o seu nome ecoar pela cidade, sendo referência para a nova geração de escultores. Como forma de agradecimento e superação pessoal, quebrou seu juramento de dor e talhou em mogno o mais perfeito exemplar de Santo Antônio de que foi capaz.

Quase um mês havia se passado desde que Joana foi ao cemitério. Desde então não conseguia entender por que um estranho se empenharia tanto em fazer a manutenção do túmulo de sua mãe. Foi quando se lembrou da caixinha de madeira onde a mãe guardava documentos e cartas que recebia de alguns parentes distantes. Abriu a caixinha com todo cuidado, sabia que a mãe não gostava que mexesse em suas coisas, as duas sempre respeitaram os segredos uma da outra, mas ela havia partido e Joana queria compreender um pouco mais de sua história. O que encontrou foi uma série de cartas escritas pela própria Inês, mas ao que tudo indicava, jamais haviam sido enviadas ao destinatário.

Nas cartas, Inês pedia perdão a um tal de João de Santo Antônio, explicou que não pôde se casar porque havia sido violentada por Tenório e este prometera acabar com a vida de João se ela insistisse no casamento. Para proteger o amado noivo, partiu com Tenório para São Paulo.

Mas assim que o dinheiro acabou Tenório foi atrás de seu pai, que por não aceitar sua união com Inês, se recusou a lhe dar abrigo. Sem dinheiro, mas acostumado com a boa vida, Tenório abandonou Inês e a deixou sozinha e grávida.

Anos mais tarde, quando descobriu que estava com um tumor maligno, a procurou para conhecer a filha e legalizar a união dos dois, assim a pequena Joana poderia ter direito a herança de sua família. Por isso ela aceitou se chamar Maria Inês Bianco de Castro, mas repudiava Tenório, fazendo o esforço pelo futuro de Joana.

Agora Joana entendia uma série de coisas, chorou copiosamente comovida com o sofrimento de sua mãe. O senhor que visita o seu túmulo regularmente não poderia ser outro além de João de Santo Antônio.

Aguardou pacientemente o próximo dia treze e então foi novamente ao cemitério.

Ficou à espera próxima ao túmulo de sua mãe. Horas se passaram, até que finalmente viu um senhor se aproximando. Joana teve vontade de chorar quando o viu rezando por sua mãe. Ele não trazia sinal algum de raiva ou descontentamento, apenas de pesar pela morte de Inês. Quando percebeu que ele havia terminado e se preparava para sair, se aproximou e lhe estendeu a caixa de madeira da mãe. Ele a olhou confuso com aquela abordagem e ela emocionada lhe explicou.

– Ela não se achou digna de lhe enviar essas cartas, mas se as escreveu é porque sentiu no fundo do coração que um dia o senhor deveria conhecer a verdade.

Com as mãos trêmulas, João de Santo Antônio pegou a caixa das mãos de Joana e a reconheceu imediatamente, foi o primeiro presente que deu a Inês. Seus olhos se encheram de lágrimas e ele se afastou sem nada dizer, caminhando lentamente por entre as lápides do cemitério.

Após a leitura das cartas, sentiu uma brisa suave o envolver e então sussurrou:

– Está perdoada minha querida Inês…

E como prova do seu perdão, Santo Antônio regressou ao altar da igreja no lugarejo onde nasceu, novamente enchendo de esperança os corações dos que compreendem que tanto o amor quanto a dor podem transformar as pessoas, para melhor.

Conto inspirado na letra da musica “Milagreiro” na voz de Cássia Eller e Djavan.





O Morro dos ventos uivantes

14 06 2011

Cathy e Heathcliff

Lembro que assisti ao filme pela primeira vez motivada pela curiosidade com o título, depois fui tragada pela força da história e fiquei me perguntando: “Por que diabos aqueles dois que se amam de forma tão profunda não ficam juntos?”.

Era ainda muito nova para entender as entrelinhas, mas mesmo assim gostei do filme. Recentemente comprei o DVD e revisitei a história dos amantes amaldiçoados, desta vez compreendendo a real magnitude da obra. E como o livro estava na fila de leituras, resolvi mais uma vez permutar as prioridades e ler a obra prima de Emily Brontë.

Como é de se esperar em um romance, a forma como os personagens foram se desenvolvendo a cada fase da história, motivados por seus interesses e também pelo ambiente em que estavam inseridos, revela o quanto uma pessoa pode mudar seus hábitos, se adequando às situações. Um bom exemplo disso é a jovem filha de Cathy Earnshaw, que de suave e instruída passa a se comportar como um animal feroz e acuado, beirando a insensibilidade. Atitude natural quando é preciso se defender de um ambiente opressor.

Já Heathcliff, sempre silencioso e sombrio, nos mostra a face feroz do amor, capaz das mais sádicas ações para impor a todos sua dor.

Sua bela amada, Cathy Earnshaw se mostra sanguínea e pode até não ter o carisma de uma protagonista, mas me ganhou em uma cena repleta de lirismo, onde confessa o amor que sente por Heathcliff. Esta cena, que também é reproduzida no filme, é emblemática e comovente e marca o ponto onde suas escolhas começam a gerar efeitos.

A história não se limita aos desencontros dos amantes, relata em paralelo os caminhos das duas famílias (os Earnshaw e os Linton) entrelaçadas com habilidade pela frieza de Heathcliff que persegue seu objetivo vingativo obstinadamente. Neste ponto não defendo as ações de Heathcliff, mas a genialidade da autora em escrever um romance tão rico em carga dramática, com personagens densos, que se degradam psicologicamente em um ambiente de atmosfera hostil.

No livro há mais detalhes, contados de forma minuciosa pela criada Nelly, que ao longo dos anos serviu as duas famílias e conhece os protagonistas desde a infância. O leitor consegue perceber aos poucos a influencia de Heathcliff sobre os membros remanescentes dos Earnshaw até o desfecho, quando um sopro de ar renovado nos conduz às ultimas linhas desta bela história de amor, um amor capaz de desdenhar até mesmo da morte.

O Livro

BRONTË, Emily. “O morro dos ventos uivantes”

Tradução de Rachel de Queiroz.

São Paulo: Abril, 2010.

Título Original: “Wuthering Heights”.

448 páginas.

O Filme

Título no Brasil: O Morro dos Ventos Uivantes.

Título Original: Wuthering Heights.

País de Origem: Reino Unido / EUA.

Gênero: Drama.

Tempo de Duração: 102 minutos.

Direção: Peter Kosminsky.





O lapidar do estado bruto

16 05 2011

Ruby

Quando estava planejando aquele que denominei projeto Alpha, fiz o exercício de escrever a sinopse dos enredos que iria trabalhar. Este exercício fez com me desse conta de uma série de recorrências em meus textos, que mostram nada mais do que projeções psicológicas de alguém acostumado a transmitir para o papel não apenas suas impressões, mas muito de seus pensamentos incontidos.

Um dos temas recorrentes em minhas sinopses originais é a noiva que abandona o noivo no altar, seja por não amá-lo, por uma fagulha de lucidez ou o simples fato da não abdicação da liberdade.

O segundo tema recorrente é a vingança, a forma de cada personagem de fazer a sua desforra e provar algo, seja a si mesmo, seja àqueles que lhe humilharam. A superação de uma opinião formada injustamente é algo que impulsiona protagonistas e antagonistas a amadurecer e se libertar de algo que os oprime.

Há também a recorrência daquilo que chamo de “síndrome da Phoenix”, o protagonista segue com seus desafios, quase morre, mas ressurge fortificado, após experimentar o aprendizado pela dor.

Foi fantástico perceber estas recorrências e mais ainda entender que o que difere um protagonista de um antagonista nos meus enredos é a forma como ele lida com a ética e com os sentimentos alheios. Ambos têm qualidades significativas e defeitos, afinal todos nós também temos.

A imperfeição é uma característica inerente da espécie humana. E é justamente isso o que procuro preservar nos textos, o lado humano dos personagens, aqui não há lugar para mocinhos e mocinhas inocentes e desprevenidos, isso é utopia! No século XXI quem age como um protagonista dos folhetins do século XIX não convence.

Por este motivo sou fã dos anti-heróis, é uma das formas mais fáceis de humanizar um personagem, além de ser mais divertido, confesso. Por que esperar pela ultima página para conhecer a desforra do protagonista se ao longo do texto ele também pode ir deixando a sua marca? Não é absolutamente necessário que o antagonista se dê bem ao longo de toda a história e encontre seu castigo somente no final, o protagonista também pode (e deve) dificultar seus passos.

Contudo, para que este discurso em favor dos anti-heróis funcione é necessário o termômetro que indique a medida certa, a lapidação do estado bruto. É nesta hora que as técnicas literárias entram em cena, neste fumegante caldeirão de ideias e preferencias, as pitadas devem ser meticulosamente dosadas a fim de proporcionar aos leitores textos apetitosos, dignos de releituras futuras.

Na minha opinião um bom escritor é também um lapidário, naturalmente no sentido figurado, já que faz parte do nosso ofício lapidar ideias brutas com a pretensão de transformá-las em um produto do entretenimento.





Lançamento Duplo: A Situação e Extraneus – Volume 2

10 03 2011

 Lançamento Duplo