A louca de hoje

16 02 2009

Dor. É a única coisa que eu sinto. Queria tanto uma beberagem mágica que fizesse a dor passar. Não a dor física, esta até me ajuda a perceber que ainda estou viva e que meu coração, apesar dos pesares, ainda bate no peito. Forte, intenso, profundo, agoniado, sufocado. Cansado, mas ainda relutante em ceder e me proporcionar a paz eterna.

Esta noite eu rezei como há muitos anos não rezava, desde que passei a não mais acreditar em crenças coletivas, moldadas por dogmas nos quais eu não acredito. Rezei para que algum mega cometa ou meteoro incandescente cruzasse a rota da Terra e acabasse com tudo, definitivamente.

Em meio às preces, imaginei uma garotinha esperando o sinal fechar para os carros para então, conduzida por sua mãe, atravessar a rua e continuar o caminho para a escola. No momento em que o sinal fechasse, o meteoro colidiria com nosso planeta e então tudo estaria acabado.

E eu teria feito um favor a ela se os Deuses tivessem ouvido as minhas preces.

Mas como o sol se ergueu no horizonte trazendo um novo dia, entendi que a prece de uma alma decepcionada com este mundo não foi suficiente para que os Deuses decidissem acabar com tudo.

Agora a garotinha vai crescer, vai se tornar uma mulher linda, inteligente e talentosa. Perfeito. Espero que ela consiga conviver com isso. Torcerei para que ela atinja o equilíbrio que eu persigo e que jamais alcanço. Desejo que o meio termo que satisfaz a todos possa satisfazê-la também.

Quando o dia de hoje ceder lugar a mais uma noite, mudarei os rumos das minhas preces. Rezarei para que ela jamais encontre em seu caminho pessoas que invejem suas qualidades e que queiram roubar para si a sorte destinada a ela.

Que jamais cruze seu olhar com alguém que enxergue apenas as curvas do seu corpo. Que seus amigos sejam realmente amigos e não pessoas interessadas em seu próprio prazer. Que ela jamais se depare com a podridão que exala das pessoas mal intencionadas, que se aproximam para machucá-la e deixá-la ainda mais triste.

Que ela possa sobreviver a esta selva de concreto, infestada de pessoas egoístas e hipócritas, que possa brilhar e ser feliz, apesar de tudo isso. Que o seu sucesso incomode mesmo, bastante, demais! Mas que ainda assim ela nunca deixe de ser quem ela é. Que seja fiel aos seus sentimentos, sejam eles nobres ou incontrolavelmente torturantes.

Que suas crises de pânico sirvam para deixá-la fortalecida, pois ela acabará entendendo que não adianta rezar para que tudo acabe. O mundo não parará de girar se ela sentir dor, se ela entender que a grande verdade a ser descoberta é que estamos neste mundo para termos nossas verdades testadas o tempo todo.

Não adianta rezar meu anjo, os Deuses estão surdos para nós. Não me odeie por desejar que tudo se acabe. Sou a louca de hoje, mas posso ser a sábia de amanhã.

Mulher de braços cruzados

“Femme aux bras croisés” (1901-02), de Pablo Picasso.

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One by One

1 02 2009

Medo. Medo não, pavor! Pânico? Não sei… A verdade é que deixar de sentir os pés no chão da piscina ou de um rio ou mesmo do mar, sempre me apavorou. Entrar em um terreno desconhecido e com possibilidade de perder o controle sempre mexeu demais comigo. Em todos os aspectos.

Decidir me libertar de um dos meus medos foi uma atitude tomada em meio a um belo porre de vinho barato, mas estou seguindo em frente. E não pensei muito antes de me matricular em uma academia para ter aulas de natação.

Chegando à academia, encontrei no vestiário uma japonesa que também faz aula. De touca e óculos cor de rosa, confesso que ela aliviou o meu receio de pagar mico saindo do vestiário vestida a caráter para minha primeira aula.

O primeiro exercício foi atravessar a piscina segurando nas barras laterais – Para sentir a profundidade da piscina. – indicou a professora. Devagar, mas constante, fiz o que pediu e cheguei viva até o outro lado.

O segundo exercício foi o de respiração. Este causou estranheza no início, mas depois me acostumei a soltar bolinhas pela boca embaixo d’água. Quando a professora percebeu que já estava dominando os exercícios de respiração, me entregou a temida pranchinha e pediu que eu flutuasse na piscina, fazendo o exercício de respiração que havia acabado de aprender. Depois de um tempo a pranchinha foi trocada por um minúsculo flutuador e depois por nada, eu deveria flutuar sozinha!

Natação

Depois disso foi a vez de bater os pés segurando na escadinha da piscina. E novamente os exercícios com a pranchinha e o flutuador até chegar ao final da aula nadando! Fiquei surpresa ao perceber o quanto nadar é instintivo. Bastaram algumas orientações e disciplina. Foi uma experiência excelente para uma primeira aula. Agora a questão é aperfeiçoar e ganhar cada vez mais confiança.

O primeiro passo foi dado, ou melhor, o primeiro mergulho foi dado. Um medo a menos, uma vitória a mais. O próximo passo? Passar para os próximos medos e eliminá-los. Um a um.

Seguirei fielmente os conselhos de um velho amigo quando estávamos bêbados em uma mesa de bar:

– Liberte-se! Entre em erupção…





Feliz Dia dos Mortos!

2 11 2008

Finados, mortos, falecidos, desintegrados, espíritos… Quem são estes que não mais existem e que ainda assim mexem com o pensamento de muitos de nós?

O que fazer quando as lágrimas já não são mais suficientes para afastar o pensamento que insiste em navegar em lembranças nem sempre agradáveis? É difícil olhar para si mesmo e se dar conta da necrópole que se formou.

Muito se engana quem acredita apenas na morte física, pois muitas são as suas formas, há diversas maneiras de nos anularmos e jogarmos a toalha no chão.

Alguns casos são temporários e logo nos damos conta do quanto estamos desistindo fácil demais dos nossos objetivos. Mas nem sempre é assim.

Por exemplo, a dona de casa que abdicou dos seus sonhos para criar os filhos, vivendo para eles e se esquecendo de si mesma. Ou mesmo a noiva ou noivo que, abandonados no altar, se fecharam para todas as outras possibilidades de felicidade. Muitos são os exemplos, muitas são as histórias e os motivos, mas ainda assim nada que justifique se conformar.

Será que aquele que no auge do seu egoísmo, achou que não precisava de mais ninguém e se isolou de todos, pode gritar aos quatro ventos que vive em paz consigo mesmo?

Vivemos para aprender a cada dia com os nossos acertos e com os nossos erros, para compartilhar, amar, sonhar… Quem está fechado para estas impressões, está fechado para a vida e, portanto, morto.

Para estes só tenho a desejar não um bom feriado, prolongado na maioria das vezes, mas um feliz dia dos mortos.





Embriaguez

1 11 2008

A embriaguez dos sentidos sempre me fascinou. Quando estou tomada pelo êxtase dos excessos, ironicamente enxergo além! Vejo além do que os olhos virtuosos podem ver. Talvez até consigam visualizar, mas não compreender.

Olhos virtuosos tendem a julgar o que vêem e param por ai. Olhos embriagados procuram entender as motivações daquilo que testemunham, desafiam os limites e cutucam as feridas. O que te fascina mais? Um olhar reprovador ou um olhar cúmplice? À sua escolha!

Quanto aos aromas posso dizer que são um termômetro realmente eficaz! Tendem a nos dizer se algo vale a pena ou não, afinal apenas o que não serve mais cheira mal, seja um prato, um ato ou a podridão de se apegar demasiadamente ao que já se passou. Quem nunca se inebriou com o aroma da pessoa amada, que virtuosamente me julgue! Mas tudo ao seu tempo.

Antes perceba que se os aromas mostram o caminho, o paladar os percorre. Um vinho não deve ser julgado apenas pelo seu gosto, suave ou seco. E sua temperatura? E o seu teor alcoólico? E a companhia? Muitas vezes a embriaguez se deve mais à companhia do que propriamente à bebida.

Se já se embriagou com o gosto de “água na boca”, mesmo que inconscientemente, aprendeu a seguir os passos do seu objeto de desejo, ainda que este não esteja em seu campo de visão. Ouça seus passos se aproximando, perceba o som de sua respiração. É ofegante? Serena? Somente quem se embriaga do outro, pode sinceramente se declarar apaixonado!

E aos amantes das sutilezas, nada mais envolvente do que o toque. É ele quem denuncia a maciez da pele, sua textura e temperatura. Tire suas conclusões.

Há quem reprove os ébrios, mas certamente não se preocupam em perceber o que causou tal embriaguez, a luminosidade do olhar, o doce aroma, o sabor, a visão ou o toque? Ou ambos?

Embriagai-vos!

 

Este texto foi um “desafio” sugerido pelo colega de escrita César Veneziani. A inspiração para escrevê-la foi o poema “Embriagai-vos!”, de Charles Baudelaire.





Pronome

1 11 2008

Eu:

Duas em uma. Ora doce, ora amarga, ora infame, ora benevolente, apaixonada! Sei o gosto do mel e do fel. Totalmente passional, guiada pela intuição e pelo olhar daquele que despertou algo dentro de mim. Algo que até então eu desconhecia.

Tu:

Um sonho que se tornou real. Aquele que era aguardado, há muito idealizado, com todas as qualidades e defeitos e um leve toque sobrenatural. Você existe! É real, mas ainda inatingível, pois há uma fortaleza te guardando.

Ela:

Dedicada guerreira, sabe de suas potencialidades e da paixão que defende. Convive com aquele que me seduz, mas ainda desconhece o que se passa em seu coração e principalmente em sua alma.

Nós:

Descobertos um pelo outro. Sabemos o que está acontecendo e justamente por não desconhecer a dimensão do que sentimos, agimos com diplomacia, pois não queremos magoar ninguém.

Vós:

Uma incógnita. Seria pretensão citar qualquer opinião sobre algo que desconheço. Prefiro assim, é menos dolorido.

Eles:

Talvez não tenham percebido. Somos dissimulados. Mas é questão de tempo até notarem o brilho em meu olhar a te fitar ou você exageradamente preocupado com tudo o que me cerca. Sempre criando mil e uma desculpas para ficarmos próximos um do outro. Talvez não compreendam, talvez nos julguem mal ou ainda dissimulem nada perceber.





A maldição

1 11 2008

Thorn

Ele quer esquecê-la a qualquer custo! Mas não consegue se desvencilhar do passado em comum, não esquece o beijo e o olhar brilhante daquela que lhe roubou o seu bem mais precioso: o seu coração.

Ela lhe sorri irônica. Senhora de si, sussurra em seu ouvido:

“ – Jamais irás me esquecer… Podes correr o mundo, deitar-se com as mais belas mulheres e ver o tempo acalmar o corpo, mas não o pensamento. Vais sempre sentir o meu perfume envolto na brisa noturna das noites de luar, vais sentir o gosto do meu beijo a cada gota de vinho que experimentares. E eu ainda estarei lá. Alojada como um espinho em seu coração!”.

Em nenhum momento ele vacilou, manteve o orgulho intacto e partiu sem olhar para trás, decidido a arrancá-la de seu coração, estava disposto a mutilar-se!

Mas o tempo que é aliado das grandes paixões foi cruel com os dois amantes. Ele não a esqueceu, mas ela saiu vitoriosa?

Não…

A mesma maldição que lançou àquele coração dilacerado lhe atingiu e transpassou por sua alma, se ele não consegue esquecê-la tampouco ela o esquecerá!

Eis aqui a mais cruel das maldições: ele a ama com paixão, mas não admite e ela não consegue enxergar outro que não ele, mas jamais lhe confessará!





SubESTIMAR

1 11 2008

Não me subestime porque sou uma mulher. Não me olhe com desdém porque não tenho tanta força física, não cuspo no chão e não falo alto, você não é melhor do que eu.

Eu posso te superar e para isso não preciso usar a força, prometo nem mesmo alterar o tom da minha voz, que para você continuará a ser sempre um sussurro.

Até quando a intolerância prevalecerá e você se considerará superior, quando, no entanto precisamos um do outro?

Você é tão forte… Mas chora como um menino quando seus projetos de vida não saem ao seu modo.

Você é tão seguro, mas se desespera quando percebe o meu olhar parando em outro.

Por que me subestima tanto?

Você não sente a natureza se manifestando em seu corpo uma vez a cada mês. Não sente a vida e a morte em um ciclo interminável, que me dilacera, me tortura e me fortalece a cada lua cheia que se apresenta no céu. Não sente a dor que me divide ao meio, me faz enlouquecer e que se esvai por entre o meu ventre me tornando energicamente mais forte, pronta para gerar vida e transformar o mundo. O seu mundo…

Você tem tantos conhecimentos, fala com desenvoltura sobre tantos assuntos, mas será que toda a sua cultura não é capaz de fazê-lo entender?

Tem certeza de que está no controle?

Por que presta tanta atenção aos que me rodeiam e sucumbem aos meus encantos? Eles o ferem de algum modo?

Não quero que sinta ciúmes. Quero que compreenda que posso ser tão livre quanto você, que tenho as mesmas possibilidades de aventuras e isso não me torna melhor ou pior, apenas igual a você.

Você escuta a minha voz a cantarolar uma canção e não se dá conta de que a letra fala exatamente dos meus sentimentos por aquele que, mesmo moldado pelo machismo existente em abundância na sociedade, despertou com a sua força de espírito a minha curiosidade feminina.

Será que ainda assim não sente a sutileza das minhas manipulações?

Não subestime a minha inteligência, eu sei o que fazer. Por mais delicada que eu possa parecer, enxergo com o coração e jamais me engano.

Você será meu, é inevitável. Eu o escolhi…